A NECESSIDADE DE AMPLIAÇÃO E REAJUSTE DAS BOLSAS DE PÓS-GRADUAÇÃO FAPEG, CAPES E CNPQ EM GOIÁS

A NECESSIDADE DE AMPLIAÇÃO E REAJUSTE DAS BOLSAS DE PÓS-GRADUAÇÃO FAPEG, CAPES E CNPQ EM GOIÁS

Um dos maiores problemas para as milhares de pessoas pós-graduandas em Goiás e no resto do Brasil é a falta e a insuficiência das bolsas de pós-graduação FAPEG, CAPES e CNPQ. As milhares de pessoas discentes de Mestrado e Doutorado estudam e trabalham na condição híbrida de estudantes-trabalhadores (De Oliveira et al., 2023), contribuindo de forma decisiva na maior parte da pesquisa científica produzida no país. Infelizmente, em muitos Programas de Pós-Graduação a falta de bolsas é um grande problema que atua como barreira para a entrada de estudantes pobres, enquanto a insuficiência do valor é um desestímulo para quem consegue uma bolsa que vale muito menos do que deveria.

 

A grande expansão do sistema de pós-graduação no Brasil nos últimos anos gerou a criação de várias vagas para os cursos, mas o valor e o número de bolsas de pós-graduação disponíveis está longe de ser suficiente. Grande parte dos pós-graduandos em Goiás e no Brasil como um todo não têm a oportunidade de ter bolsas, dado a grande indisponibilidade das mesmas para a nossa realidade estadual e nacional.

 

Em 2023, a nível federal, as bolsas CAPES atenderam à 37% dos pós-graduandos no Brasil, sendo que 79% das bolsas de pós-graduação no Brasil são disponibilizadas pela CAPES, 8% pelo CNPQ, e 13% pelas FAPs, como a FAPEG (“Bolsas da Capes atendem 37% dos pós-graduandos no Brasil”, 2025). Utilizando uma regra de três simples, esses dados mostram que cerca de metade dos pós-graduandos no país não possui a oportunidade de ter bolsas de pós-graduação, um cenário muito preocupante para a pesquisa brasileira ainda em 2026. Por isso, é muito importante para o desenvolvimento do país um grande aumento da disponibilidades de bolsas pela CAPES, CNPQ e FAPs, para dar condições dignas de trabalho para o presente e futuro para o coletivo das milhares de pessoas pós-graduandas no Brasil.

 

Considerando esse cenário geral, é importante entender melhor o que acontece no nosso estado. Para isso, utilizamos os dados das chamadas públicas de bolsas disponibilizadas pela FAPEG desde 2021. Agregamos a quantidade de bolsas das chamadas públicas do programa de concessão de bolsas de formação de mestrado e doutorado com as chamadas das bolsas de excelência por ano (“Editais – FAPEG”, [2026]).

Figura 1. Número total de bolsas de pós-graduação disponibilizadas pela FAPEG por ano, de 2021 à 2026. Os dados se referem a a quantidade de bolsas das chamadas públicas do programa de concessão de bolsas de formação de mestrado e doutorado e chamadas das bolsas de excelência (instauradas em 2025) por ano, disponíveis em https://goias.gov.br/fapeg/categoria/editais/.

Figura 1. Número total de bolsas de pós-graduação disponibilizadas pela FAPEG por ano, de 2021 à 2026. Os dados se referem a a quantidade de bolsas das chamadas públicas do programa de concessão de bolsas de formação de mestrado e doutorado e chamadas das bolsas de excelência (instauradas em 2025) por ano, disponíveis em https://goias.gov.br/fapeg/categoria/editais/.

 

O número de bolsas de pós-graduação disponibilizadas pela FAPEG desde 2021 teve um pico neste ano, provavelmente fruto da não disponibilização no ano de 2020, e se manteve praticamente estável até 2025. Em 2026 tivemos uma mudança positiva substancial com um aumento de cerca de 50% do número de bolsas de mestrado, mas com a continuação da estagnação do número de bolsas de doutorado. No entanto, para entender melhor o que essa disponibilidade de bolsas representa é preciso também avaliar a demanda pelas mesmas. Uma forma de fazer isso é comparar o número de bolsas de pós-graduação e dividi-lo pelo número de cursos de pós-graduação credenciados do estado. Dessa forma geramos uma estimativa média de quantas bolsas da FAPEG temos por cada programa, expressando parte da relação de disponibilidade e demanda de bolsas ao longo dos anos (Figura 2).

Figura 2. Número de bolsas de pós-graduação disponibilizadas pela FAPEG por ano, de 2021 à 2026, dividido pelo número de programas de pós-graduação em Goiás. Os dados se referem a a quantidade de bolsas das chamadas públicas do programa de concessão de bolsas de formação de mestrado e doutorado e chamadas das bolsas de excelência (instauradas em 2025) por ano.

Figura 2. Número de bolsas de pós-graduação disponibilizadas pela FAPEG por ano, de 2021 à 2026, dividido pelo número de programas de pós-graduação em Goiás. Os dados se referem a a quantidade de bolsas das chamadas públicas do programa de concessão de bolsas de formação de mestrado e doutorado e chamadas das bolsas de excelência (instauradas em 2025) por ano.

 

O número médio de bolsas por curso de pós-graduação por ano mostra que apenas em 2021 e em 2026 esse número foi maior que uma bolsa por curso: em 2021 para mestrado e doutorado, e em 2026 apenas para mestrado. Esses dados mostram o quão pequena a disponibilidade de bolsas de pós-graduação pela FAPEG é em relação à demanda da pós-graduação goiana.

 

Em relação aos valores das bolsas, hoje uma bolsa regular de Mestrado FAPEG é de 2310 reais, enquanto para Doutorado é de 3450 reais, enquanto as da CAPES/CNPQ, respectivamente, de 2100 e 3450 reais. As da FAPEMIG (Minas Gerais) são de 3000 reais para o Mestrado e 4500 reais para o Doutorado, e os da FAPEAL (Alagoas) são de 2550 para Mestrado e 3750 para o Doutorado. Já as da FAPESP (São Paulo), são de 3120/3300 para Mestrado e 5520/6810 para Doutorado. Os reajustes a nível federal e estadual desde 2022 foram importantes, com destaque para as bolsas FAPESP e o reajuste de agosto de 2025 da FAPEMIG, enquanto o reajuste da FAPEG de 2025 (cerca de 10%)), ainda que positivo, está longe de suprir as necessidades dos pós-graduandos de Goiás. As bolsas de excelência para o doutorado implementadas a partir de 2025 com certeza dão salários (efetivamente o que as bolsas são para os pós-graduandos) dignos, mas contemplam hoje apenas uma minoria muito restrita de 20 novos bolsistas por ano, enquanto a imensa maioria segue com bolsas de baixos valores, ou mesmo sem a oportunidade de ter bolsa, em muitos casos.

 

Ao mesmo tempo, a partir de 2021, o financiamento da FAPEG para Ciência e Tecnologia teve um importante crescimento expressivo, como mostra a Figura 3 de Goiás da Plataforma Sou Ciência no gráfico “Investimento em CT&I por Agência - Série histórica 2018/2024”. Desde 2023 o investimento em ciência em Goiás pela FAPEG é maior do que o feito pela CAPES e CNPq no estado, mas, infelizmente, pouco desse investimento se reverteu em uma maior quantidade e qualidade das bolsas de formação para a pós-graduação (“Sou Ciência - FAPs no contexto nacional de CT&I”, 2025).

Figura 3. Série histórica do investimento em Ciência e Tecnologia (C&T) da FAPEG (FAP), CAPES e CNPQ no estado de Goiás no período de 2018 a 2024, com valores corrigidos pelo IPCA para janeiro de 2025 (“Sou Ciência - FAPs no contexto nacional de CT&I”, 2025).

Figura 3. Série histórica do investimento em Ciência e Tecnologia (C&T) da FAPEG (FAP), CAPES e CNPQ no estado de Goiás no período de 2018 a 2024, com valores corrigidos pelo IPCA para janeiro de 2025 (“Sou Ciência - FAPs no contexto nacional de CT&I”, 2025). 

 

Um fato muito relevante é de que o reajuste das bolsas da FAPEG de 2022 aconteceu cerca de um ano antes do reajuste da CAPES e CNPQ, de modo que as bolsas do estado ficaram por um bom tempo com valor de cerca de 56% maior do que os valores federais. Hoje, há quatro anos desse fato e durante um similar calendário político do país, é importante que o Governo do Estado de Goiás e a FAPEG tomem o exemplo das Fundações de Amparo à Pesquisa de São Paulo, de Minas Gerais e de Alagoas, e façam mais um reajuste do valor das bolsas de pós-graduação, tomando os valores de Minas Gerais como modelo, com um reajuste de cerca de 45% para as bolsas de Mestrado e Doutorado, e aumente substancialmente o número de bolsas disponibilizadas!

 

Milhares de nós percebemos que o reajuste dos valores, e mais urgentemente o aumento do número de bolsas disponibilizadas é uma urgência para a valorização da ciência e do trabalho científico no país, em especial para essa categoria que trabalha na base da pesquisa desenvolvida no país. Reconhecemos, e a sociedade e  o governo devem também reconhecer, a realidade de que investir em Ciência, Tecnologia e Inovação é também fundamental para impulsionar o crescimento econômico de qualquer país, e no Brasil, isso não é diferente. Uma das formas mais eficazes de promover esse avanço é passa pela valorização de recursos humanos, especialmente a mão de obra científica, que é crucial para a produção de conhecimento. Nesse sentido, é imprescindível que o Brasil implemente políticas que valorizem os jovens pesquisadores. Isso inclui aumentar substancialmente o número de bolsas disponíveis bem como reajustar o valor das mesmas, tanto no Brasil quanto no exterior, e estabelecer um mecanismo anual de correção dos valores.

 

Outra questão fundamental hoje são os direitos previdenciários para a pós-graduação, outra pauta histórica de nossa categoria. Recentemente, o PL 6894/2013 foi aprovado na Câmara e está em tramitação no Senado, com o objetivo do enquadramento obrigatório dos bolsistas de pós-graduação no Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Como consta no parecer do Dr. Ricardo Galvão, o enquadramento dos bolsistas como segurados obrigatórios do RGPS, tal como ora proposto, corrige uma distorção histórica, assegurando cobertura previdenciária em situações de doença, maternidade e incapacidade temporária, bem como possibilitando a contagem do tempo dedicado à pesquisa para fins de aposentadoria. Essa iniciativa também reconhece que a atividade de pesquisa científica, sobretudo quando desenvolvida mediante a concessão de bolsa, representa trabalho de elevado interesse público e de relevante impacto social. O projeto inclui os bolsistas de agências estaduais, portanto é momento de ser organizado legal e administrativamente as destinações orçamentárias e logísticas para garantir a cobertura previdenciária para as pessoas bolsistas de pós-graduação da FAPEG sem redução no valor e na quantidade de bolsas, que, como argumentamos anteriormente, precisam ambas serem aumentadas dada à necessidade da categoria.

 

Dado o exposto, temos três pontos prioritários para a atual e futura comunidade discente da pós-graduação de Goiás para serem conquistados em 2026 no âmbito estadual e federal (FAPEG, CAPES e CNPq):

 

  1. Um grande aumento na quantidade de bolsas de pós-graduação
  2. Um reajuste de cerca de 45% dos valores das bolsas de pós-graduação
  3. A viabilização financeira e logística para a rápida efetivação do enquadramento obrigatório dos bolsistas de pós-graduação no Regime Geral de Previdência Social.

 

Atenciosamente,

 

Associação de Pós-Graduandos e Pós-Graduandas da Universidade Federal de Goiás

 

Referências

 

Bolsas da Capes atendem 37% dos pós-graduandos no Brasil. Disponível em: <https://noticias.r7.com/educacao/bolsas-da-capes-atendem-37-dos-pos-graduandos-no-brasil-15032025/>. Acesso em: 19 ago. 2026.

DE OLIVEIRA, Elisangela Lizardo et al. Dossiê Florestan Fernandes: Pós-graduação e trabalho no Brasil. São Paulo: ANPG/CEMJ, [2023]. Disponível em:<https://jornal.pucsp.br/sites/default/files/dossie_florestan_fernandes_qrcode.pdf>. Acesso em: 19 ago. 2026. 

Editais – FAPEG. Disponível em: <https://goias.gov.br/fapeg/categoria/editais/>. Acesso em: 20 ago. 2026.

Sou Ciência - FAPs no contexto nacional de CT&I. Disponível em: <https://souciencia.unifesp.br/dados-fctesp/faps/faps-no-contexto-nacional-de-ct-i>. Acesso em: 19 ago. 2026.

 

Também publicado em formato de cards no Instagram da APG-UFG (https://www.instagram.com/p/DaTcD5pEU4H)

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